Cenas Cotidianas #1: o Jogador e o Chico

Jogo de futebol rolando pelo Campeonato Brasileiro. Time perdendo por dois gols. O jogador estava irritado com a arbitragem, achou que sofreu faltas repetidas e que seus adversários não estavam sendo penalizados como deveriam. Reclamou com o árbitro que levantou o cartão amarelo. Para algum jogador adversário? Não. Para o reclamão. O árbitro achou que a reclamação era excessiva. O jogador já tem fama de reclamar sobre faltas, de cair de forma teatralizada no gramado, de desrespeitar a arbitragem. Esse foi seu terceiro amarelo, então o jogador, que já não têm atuado de forma regular, ficou suspenso do próximo jogo, o que atiçou os jornalistas que estavam na beira do campo, já que esse jogador está pleiteando uma vaga para o maior campeonato futebolístico, a Copa do Mundo. Na entrevista pós partida, o jogador soltou a frase “o árbitro acordou de chico”. Riu. Alguns jornalistas riram junto.

É interessante que, quando um homem pretende ironizar e inferiorizar a atitude de outro homem, recorre a expressões usadas contra mulheres, já que a categoria “mulher” foi construída como inferior a partir de processos históricos, culturais e simbólicos dentro da sociedade patriarcal. Ouvimos homens xingarem homens de “mulherzinha”, “filho da puta”, “sensível”. “Estar de chico” é uma expressão pejorativa ligada à menstruação, que é um processo natural das mulheres (e de pessoas que menstruam). Chico faz referência à chiqueiro, sujeira. Essa expressão coloca a mulher menstruada no lugar de porca, inferior ao homem que não menstrua. A expressão associa também menstruação e mulher ao mau humor e descontrole emocional, desequilíbrio.

Para Simone de Beauvoir, na obra O Segundo Sexo, o homem é colocado na sociedade patriarcal como o padrão universal, “o sujeito”, que é neutro, racional, universal. Enquanto a mulher é definida como “o Outro”, ser secundário, emocional, o segundo sexo. Um indivíduo que não é pleno, pois é alguém em função do homem, ou seja, uma esposa, uma mãe, um objeto de desejo.

Para Judith Butler, não existem papéis naturais para homens e mulheres. Gênero é uma performance social, repetida ao longo do tempo. A ideia de que mulheres são mais frágeis ou menos racionais não é biológica, não é natural, mas sim reforçada pela cultura. É produzida e mantida.

A inferiorização das mulheres, na lógica do patriarcado, acontece por mecanismos culturais, através dos estereótipos de que a mulher é emocional, fraca, instável; sociais, com a divisão desigual dos papéis; econômicos, com a desvalorização do trabalho feminino; e simbólicos, através da linguagem e representações (como aconteceu no caso do jogador). Expressões como “estar de chico” fazem parte de um sistema maior que associa o feminino a algo negativo, reforça a ideia de descontrole emocional, neutraliza e desqualifica mulheres. O que o jogador falou reproduz no microcosmos do futebol a forma como a sociedade retrata “o que é ser mulher”. Além de deixar claro o pacto entre homens para manter o “status quo” da sua categoria.

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